A história tisnou a mulher

Por: Antonio Carlos Siufi Hindo - 07/12/2017 07h00

Os noticiários televisivos noticiam os atos de absoluta selvageria praticados por insanos contra a sua companheira. Semana passada mais um desses espetáculos horrorosos foi noticiado. Um homem ateou fogo na sua mulher, na frente do seu filho menor. Não demonstrou arrependimento pela barbárie praticada. Mas as causas motivadoras dessas tragédias não são inusitadas. Elas não surgiram em nossos dias. São tão antigas quanto a própria história da civilização.

A enxurrada de fatos históricos inseridos em seus anais avalizam essa verdade incontestável. A tal maçã, à que faz menção o texto sagrado dos cristãos foi interpretada pelos doutores da lei como um ato de esperteza da mulher. A sua ação nefasta fez implantar o pecado original. Algo abominável. Mas foi esse entendimento despropositado que ditou a regra de comportamento para povos, raças e nações em evidente prejuízo à mulher.

O Concílio de Trento, um marco singular na vida da cristandade, manifestou-se contrário à mulher ao sustentar que era um ser sem alma. O Concílio foi uma reação à revolução religiosa desencadeada por Lutero. Mas as suas decisões à toda evidencia marcharam na contramão dos ensinamentos deixados pelo Cristo, que exaltou a mulher, garantiu a sua honra, mas, sobretudo, moralizou os costumes públicos. O Cristo avançou ainda mais. Quando venceu a morte e garantiu a todos a certeza da vida eterna, foi para uma mulher que ele anunciou por primeiro a boa nova e a encarregou de difundi-la para o conjunto da humanidade. Não tem nada mais engrandecedor para homenagear a mulher.

Com tudo isso, a humanidade incrédula não propiciou à mulher a possibilidade de exteriorizar suas atividades plenas. Não tem nada mais engrandecedor para homenagear a mulher. A hipocrisia foi tão grande que a ela foi negado desde o despontar da sua existência o direito à educação. A fidelidade que lhe foi exigida resultou imposta mediante uma violência mental tormentosa, e não em virtude que precisa acompanhar as pessoas de bem.

Foi nesse contexto amargo que surgiu o autoritarismo masculino e nefasto dos calhordas, dos cafajestes e dos sórdidos, que transformaram suas companheiras em verdadeira propriedade. Com direito de vida e de morte. Contra os fatos não existem argumentos que afastem a certeza de que a História tisnou a mulher. Só com o advento da Revolução de 1.930, liderado por Getúlio Vargas, que esses erros foram sendo reparados de uma forma tímida.

Hoje, o nosso Congresso Nacional debate as propostas legislativas para inibir as práticas criminosas contra a mulher. São propostas inteligentes e que fecham o cerco contra os que teimam em caminhar na contramão dos tempos modernos. A começar pela pena imposta. As medidas legislativas em discussão alcançam a incauta vítima em outras circunstancias especiais.

A nossa senadora Simone Tebet fez um discurso inteligente sobre o tema. A nova lei não vai acabar com essas atrocidades. Mas o Estado estará sempre presente no sentido de reafirmar o combate a essa prática condenável. Napoleão Bonaparte, que se notabilizou como general, político e estadista, costumava dizer sempre para os seus soldados que a maneira mais inteligente de ganhar uma batalha contra a mulher é fugindo dela. Aqui, talvez, reside uma frase célebre e acertada. A frase convoca-nos para diferentes interpretações. Cada um de nós tem a inteligência necessária para seguir o melhor caminho.

O silêncio, o respeito às opiniões divergentes aliado à tolerância poderão estabelecer os parâmetros que indicarão o desfecho sempre auspicioso para qualquer tipo de discussão. Sem vencedores ou vencidos. Vale a pena apostar nessa tese. Ela engrandece e humaniza o ser humano. E o deixa mais próximo de Deus.

Promotor de Justiça aposentado. (dr.hindo@hotmail.com)