Weimar Gonçalves Torres registra a vida e o amor pela família, pelo Brasil e por O PROGRESSO

Por: Fátima Frota - 19/04/2017 16h10

O casal Adiles do Amaral Torres e Weimar Gonçalves Torres com os filhos, Weimarzinho (in memorian), June Ângela e a caçula Blanche Maria no colo da mãe O casal Adiles do Amaral Torres e Weimar Gonçalves Torres com os filhos, Weimarzinho (in memorian), June Ângela e a caçula Blanche Maria no colo da mãe
Casamento de Adiles do Amaral e Weimar Gonçalves Torres Casamento de Adiles do Amaral e Weimar Gonçalves Torres
O filho do meio, Weimar Gonçalves Torres Júnior (in memorian) O filho do meio, Weimar Gonçalves Torres Júnior (in memorian)
Adiles do Amaral Torres, a filha June Ângela e o filho Weimar (in memorian) Adiles do Amaral Torres, a filha June Ângela e o filho Weimar (in memorian)

Weimar GonçalvesTorres tinha o hábito de registrar a rotina dele e da família no diário, do primeiro ao último dia do ano. Ele descrevia os sentimentos, os sonhos, as angústias, as aspirações, as conquistas e os investimentos a fazer, no jornal O PROGRESSO. Tudo era planejado! A forma amorosa de dirigir-se à família, a preocupação com a saúde do filho Weimarzinho, o acompanhamento escolar da June [Blanche ainda não tinha nascido], a intercessão junto aos familiares e a ida, religiosamente, à missa aos domingos e feriados santos, foram demonstrados por ele, na trajetória de sua vida. As descrições físicas e psicológicas feitas no contexto do diário do ano de 1964, demonstram que Weimar vivia intensamente e emocionalmente cada situação.

"Entre foguetes e tiros anunciavam o novo ano. A Adiles e eu, por incrível que pareça, dávamos mamadeira para um cachorrinho que ontem encontrei na estrada de Jateí. Condoído com o animalzinho, trouxe-o comigo", descreveu Weimar, no dia 1º de janeiro de 1964.

O calor do início do ano, em Dourados, estava bárbaro, mesmo assim, Weimar participou de um comício pró divisão do Estado, na Associação Comercial e, à noite, na Praça Antonio João. "Para refrescar, fui à piscina do Jardim Brasília com a June...".

Apesar das inúmeras agendas políticas que precisava cumprir como deputado estadual, a saudade da família, muitas vezes, batia no peito: "Meu desejo maior é rever meus filhos e minha esposa".

No período em que não estava na Assembleia, em Cuiabá, ficava em São Paulo e preenchia o tempo levando a família ao cinema, ao zoológico, a exposições culturais, ao teatro e ia às compras para a casa e para o sustento da família. Tudo passava pelo crivo do olhar observador que possuía, desde a compra do apartamento de São Paulo, às dores que sentia ao ver o filho Weimarzinho tomar injeções e remédios para curar uma bactéria instalada nos pulmões e ossos.

"O apartamento comprado não gostei porque, além de pequeníssimo, as janelas sem proteção ofereciam constantes perigos às crianças". "Levamos Weimarzinho ao médico... (...) O inocente está doente mesmo. Seu tratamento levará muito tempo. Pobre filho! Passa grande parte de seus dias à volta com médicos, injeções estreptomicina e remédios". " (...) Graças a Deus! O médico constatou a regressão da sua moléstia".

Weimar observava, também, cada detalhe das expressões de alegria e felicidade. As emoções demonstradas pela família não passavam em branco. As comemorações de aniversário e de casamento, bem como a extração de dentes e a ida da filha pela primeira vez na escola, retratam o envolvimento emocional entre pais e filhos. "O Weimarzinho se entusiasmava com as exibições de luta livre, gritando e torcendo com vigorosa exclamação: bem-feito! Bem feito!"

"Levei a June para o primeiro dia de aula, no Colégio Coração de Jesus, bem em frente ao edifício que moramos".

" Hoje (29 de janeiro), estamos completando treze anos de casados. Para comemorar, depois de irmos ao médico, na cidade, entramos numa loja de calçados e compramos sapatos para toda a família".

" O aniversário do Weimarzinho: com um pequenino bolo e quatro crianças vizinhas, apagou as três pequeninas velas que simbolizam seus três anos de vida. Ganhou um chapéu de astronauta do papai e da mamãe e os óculos de mergulhador, que há muito queria, presente dos avós. Tirei várias fotos do feliz aniversariante".

"13 de julho: Aniversario da June. Recebeu presentes como bonecas, vestidos, jogo de copos de brinquedos, meias, corte de vestido".

" 09 de outubro – Aniversário da minha mãe. Passei o dia feliz em Ponta Porã, para onde segui com toda a minha família. Lá, encontrei todos bem de saúde".

" 29 de dezembro: Aniversário da Adiles, que completa 31 anos. Recebeu vários presentes, entre os quais, um corte de renda que lhe dei".

"Após o almoço, vou levar a June ao colégio. Descemos o elevador, atravessamos a rua e, já no portão de entrada, ela me joga um beijo e prossegue sozinha para o interior do grande pátio que circunda o prédio do colégio".

" A noite do natal, nos reunimos na casa do meu sogro, seu Amaral. As crianças reunidas receberam os presentes trazidos por papai Noel. June ganhou um pianinho, uma boneca e um pijama baby doll; o Weimarzinho ganhou um caminhão FNM, um carrossel, uma bola e um pijaminha". Interessante destacar que o nascimento da última filha, Blanche Maria Torres, ocorreu em maio 1965. " A felicidade de Weimar era irradiada por todos os cantos da cidade. Ao encontrarem-se com ele e nas visitas que faziam, todas as pessoas parabenizavam o nascimento da filha", conta Adiles do Amaral Torres.

Sempre atento a tudo e a todos, algumas situações dos familiares e do Brasil, o deixavam muito preocupado. "Passei pelo restaurante (São Paulo) onde trabalha uma parenta nossa. A Ruth, saiu de Ponta Porã há seis anos e estava curioso para revê-la; "Os novos preços da gasolina e derivados do petróleo aumentados em 100% estão produzindo alta no custo de vida, inquietando a população".

"Recebi telegrama da Adiles anunciando que meu cunhado José Carlos está hospitalizado em São Paulo. Pede minha presença. (...) O eletroencefalograma do José nada apresentou de anormal, evidenciando que a intenção dos médicos de operá-lo era simplesmente absurda".

O PROGRESSO

O jornal O PROGRESSO, criado por Weimar Gonçalves Torres, aos 21 de abril de 1951, tem na filosofia "Pensamento e Ação por uma vida melhor", a diretriz norteadora do seu editorial. É considerado por universidades, escolas e assinantes em geral como um patrimônio histórico e cultural e fonte de estudo e pesquisas sobre o desenvolvimento da cidade de Dourados.

Todo início sempre é muito difícil e, para o PROGRESSO, não poderia ser diferente. "Começou de forma simples e com muita dificuldade, pois a composição era letra por letra", relembra dona Adiles do Amaral Torres. Aos poucos, o impresso foi ganhando interesse e adesão da população. Weimar Torres dirigiu até 1969 e, após a sua morte, em setembro deste mesmo ano, Vlademiro do Amaral, seu sogro, ficou à frente, pois o mesmo já era sócio do O PROGRESSO. Adiles do Amaral Torres é diretora-presidente e sócia-proprietária do jornal juntamente com as filhas, Blanche Maria e June Torres.

O dia 31 de março, dia escuro, nevoeiro e chuvoso serviu de cenário aos graves acontecimentos que se desenvolveram

— Weimar Gonçalves Torres

"Até sempre 1964!"

Os dias que antecederam a Revolução de 1964 receberam de Weimar uma atenção especial, descrevendo que " o dia 31 de março , dia escuro, nevoeiro e chuvoso serviu de cenário aos graves acontecimentos que se desenvolveram no País que parece estar à beira de um vulcão. (...) Deus tenha pena do Brasil!"

Relembrar o ano de 1964 é conhecer alguns detalhes históricos, como por exemplo, que foi aos 28 de setembro...

— Weimar Torres

Relembrar o ano de 1964 é conhecer alguns detalhes históricos, como por exemplo, que foi aos 28 de setembro que o jornal começou a circular duas vezes por semana. "Às quartas e aos sábados. Foi uma evolução considerável", escreveu no seu diário Weimar Torres.

" Instalei meu escritório numa sala do prédio da gráfica onde trabalho na direção do jornal";

" Inclui o nome da Adiles, na direção do O PROGRESSO, pois ela vem atendendo-o na minha ausência.

Ela está escrevendo uma coluna social com o pseudônimo de Anete";

" Preparo-me para seguir para São Paulo, onde devo, entre outras coisas, mandar confeccionar clichês para a edição especial do O PROGRESSO de 20 do corrente, aniversário de Dourados";

"Reinicio a minha luta à frente de O PROGRESSO";

" Último dia da edição especial de O PROGRESSO, comemorativo do 20º aniversário da cidade. Uma

"Saudação a Dourados", na primeira página, é a minha oferenda à terra que há 15 anos proporciona-me tudo o que tenho.

28 de dezembro – (...) Trabalhamos à noite no jornal para dar conta de compor uma lei da prefeitura bastante extensa. Choveu o dia todo";

" Sem ir à festa alguma, no recesso do lar, no silêncio e no recolhimento, vejo transcorrerem as últimas horas de mais este ano de lutas, cheio de imprevistos e apreensões, mas bastante feliz". "Até sempre, 1964!".

Weimar Gonçalves Torres foi vereador, deputado estadual e federal, jornalista, advogado, poeta, pai de família e pessoa bastante dedicada à caridade.