Sem Proteção

Por: Redação - 11/01/2017 09h37

Na era das tecnologias cada vez mais sofisticadas, da propagação instantânea de informações e da febre das redes sociais, o resultado de uma pesquisa realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas causa no mínimo estranheza e deixa claro que existem coisas fora da ordem, sem proteção. O levantamento feito com alunos do 9º ano de escolas públicas e privadas mostra que em 2015, 33,8% dos alunos do último ano do ensino fundamental responderam que não usaram preservativos durante a primeira relação sexual. Esse número representa um terço e, em comparação com 2012, significa que em apenas três anos, a redução dos que usaram preservativo foi de nove pontos porcentuais.

Por outro lado, essas estatísticas acabam revelando o crescimento de uma doença, aparentemente considerada simples, mas que foi um tanto negligenciada pelo Governo Federal, principalmente na última década. As autoridades brasileiras já admitiram o que alguns médicos têm afirmado há tempos: o Brasil vive uma epidemia de sífilis, a mais comum das doenças sexualmente transmissíveis. Assim como os números do desemprego no País, a taxa de infectados, não para de crescer. Entre as gestantes, um dos grupos de maior risco, subiu 202% desde 2010.

Os dados do Ministério da Saúde mostram que os casos de sífilis vêm aumentando em todas as faixas da população brasileira ao longo dos últimos anos, mas explodiu entre 2014 e 2015. Entre os adultos, ela cresceu 32,7% nesse período, chegando a 65.878 ocorrências no ano passado. Os casos de sífilis em gestantes subiram 20,9%, e a sífilis congênita, em bebês, cresceu 19%, chegando a 19.228 casos em 2015. Assim, de cada 1.000 nascidos vivos, 6,5 portavam a bactéria.

De acordo com estudos da Sociedade Brasileira de Infectologia, pacientes confundem a doença com alergias e não procuram tratamento. Apenas anos depois é que os sintomas mais sérios aparecem. Os especialistas afirmam que está aumentando o número de pessoas que chegam nos consultórios com graves lesões oculares e em estado demencial. Para os médicos esse estágio poderia ser evitado com o uso da camisinha durante as realações sexuais. Segundo eles, o jovem tem que aprender a avaliar seu próprio risco e, se perceber que está vulnerável à doença, deve fazer o teste periodicamente. A detecção da sífilis é feita por meio de testes rápidos disponíveis no Sistema Único de Saúde . Entre as gestantes, as verificações tem que ser feitas durante o pré-natal.

Um fator que chama a atenção na pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas é que os jovens de até 24 anos ignoram o preservativo por não terem medo da Aids e por confiarem no parceiro. A desistência da camisinha acontece aos primeiros sinais de um relacionamento sólido. Os dados também assustam a Organização das Nações Unidas, que acredita que o grande problema que se enfrenta, ainda hoje, no que diz respeito à prevenção é o fato dos adolescentes, jovens e adultos só usarem a camisinha nas primeiras relações.

Esse comportamento da geração que tem à sua disposição a maior quantidade de informações sobre os mais variados, também deixa evidente qu há uma crescente inversão de valores. A sensação de ter um relacionamento fixo, na realidade não pode ser traduzida em segurança. Tudo é praticamente volátil e parece se desmanchar no ar. Para os especialistas, as respostas fornecidas pelos pesquisados mostra que o conceito de parceiro fixo mudou muito e continua mudando a cada hora e cada mês.

Os dados da Organização das Nações Unidas também revelam que o assunto ainda é encarado como um tema tabu, onde o silêncio é predominante. O uso do preservativo fica ainda mais complexo e acaba se tornando um fantasma, principalmente para os meninos. As meninas, por sua vez, com medo de perder o parceiro, cedem. Essa é uma das explicações para o fato de a faixa entre 13 e 19 anos ser a única na qual há mais mulheres soropositivas do que homens.

Um dos desafios desses comportamentos de riscos é saber lidar com com todo o viés sociocultural dos tempos modernos. Nesse contexto, mais do que deixar os jovens com peso total da mochila, é necessário e urgente, ações conjuntas, não só no setor da saúde, mas também dos agentes ligados à educação. A reversão desse quadro preocupante passa pelos programas de capacitação de professores das escolas públicas e privadas. Além disso, o resultado da pesquisa feita com os jovens, mostra as autoridades não estão conseguindo desenvolver campanhas publicitárias assertivas que cheguem até o consciente dos estudantes. Somado a isso, tem que existir o comprometimento dos gestores políticos nessa tarefa.