Roubalheira nas Rodovias

19/03/2017 15h24

A Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan) acaba de concluir um estudo apontando que os roubos de cargas nas rodovias de todo o país custaram R$ 6,1 bilhões à economia brasileira entre 2011 e 2016, ou seja, um prejuízo médio de R$ 3,9 milhões por dia com as ocorrências que se concentram principalmente nos estados do Rio de Janeiro, que responde por 43,7% dos roubos, e de São Paulo, que fica com 44,1% das ocorrências. O mais preocupante para o setor produtivo brasileiro é que esse tipo de crime aumenta numa proporção assombrosa, saltando de 12 mil ocorrências em 2011 para mais de 22 mil no ano passado, um crescimento de 86% para uma economia que está em recessão há pelo menos dois anos. A questão é: um país que arrecada mais de R$ 2 trilhões em impostos, que tem grande parte da malha rodoviária pedagiada, não consegue garantir nem segurança para as empresas que transportam a produção, que garantem o funcionamento das indústrias, que abastecem o comércio e o setor de serviços, que geram milhões de empregos e divisas para a nação?

Enquanto os governos estaduais e federal não se preocupam em garantir segurança nas estradas brasileiras, as transportadoras vão exigido taxas extras nos casos de produtos com destino ao Rio de Janeiro e São Paulo, com muitas empresas ameaçando desistir, inclusive, de operar no Rio de Janeiro, onde a incidência do roubo de carga passa dos 50 casos por grupo de 100 mil habitantes. A situação parece estar fora do controle das autoridades de segurança pública, tanto que somente no ano passado os prejuízos com o roubo de cargas chegaram ao valor recorde de mais de R$ 1,4 bilhão, quase o dobro dos R$ 761 milhões registrados em 2011, mas a realidade deve ser ainda mais grave porque o estudo da Firjan não computou os casos de roubo de cargas no Estados do Acre, Amapá, Pará e Paraná. Em virtude disso, um movimento nacional do setor produtivo está sendo articulado pelas federações das indústrias de todo o país, com apoio da Confederação Nacional da Indústria (CNI) para defender a adoção de penas mais duras para os crimes de roubo de cargas e receptação, além de cobrar dos governos federal e estaduais a contratação de mais policiais para recompor os quadros das corporações.

Transportadoras estão pedindo socorro para reduzir ocorrências de roubo de cargas no país

Em outra frente, as empresas transportadoras de cargas também querem proibir a venda dos bloqueadores de sinal de radiocomunicação, já que esses equipamentos têm sido usados pelas quadrilhas para monitorar os caminhões que serão atacados durante o trajeto. Caso essas providências não sejam tomadas, continuarão ocorrendo o o encarecimento dos seguros, a cobrança de taxas extras pelas transportadoras e o repasse dos custos ao consumidor, o que acaba elevando ainda mais o custo-Brasil e dificultando a concorrência dos produtos brasileiros no mercado internacional. O Ministério da Justiça sabe o que precisa ser feito para atacar as quadrilhas especializadas nesse tipo de crime, tanto que no ano passado criou o Comitê de Combate a Furtos e Roubos de Cargas, reunindo empresários, trabalhadores e membros do poder público para levar propostas ao governo, mas até o momento nada foi feito. Esse, alías, é o grande problema do governo federal, que demora meses, as vezes anos, para adotar medidas que poderiam ser imediatas como, por exemplo, o aumento do efetivo da Polícia Rodoviária Federal (PRF) nas rodovias com o objetivo exclusivo de atacar esses bandos.

Ao mesmo tempo em que cobra mais segurança nas rodovias para reduzir o custo de escoamento da produção em virtude dos roubos de cargas, a indústria também deveria exigir do governo mais investimentos nos portos brasileiros, que figuram entre os piores de toda América Latina. O descaso do governo explica porque poucos setores da economia nacional funcionam de forma tão ineficiente quanto os portos, que apresentam desde problemas de acesso aos terminais de carga até demora exagerada para o embarque de cargas. Estudo realizado pela Confederação Nacional dos Transportes (CNT) revela que esses gargalos causam prejuízos de bilhões de reais todos os anos às empresas exportadoras, sobretudo porque a dificuldade de acesso aos terminais portuários gera atraso na entrega, aumento dos preços e prejuízos às empresas envolvidas nas operações. Quem exporta convive com a escassez de pátios para estacionamento de caminhões; ausência de planos de movimentação e restrições para a navegação dos navios por conta da baixa profundidade, fazendo com que as embarcações que passaram pelos portos brasileiros no ano passado chegassem a ficar quase 90% do tempo da estadia inoperante, ou seja, aguardando a vez para atracar.