Índios prometem resistência contra ordem de despejo

Polícia Federal deve despejar ainda hoje as famílias indígenas que ocupam, desde fevereiro de 2016, cinco chácaras localizadas na vizinhança da Jaguapiru

Por: Flávio Verão - 11/01/2017 08h23

Indígenas prometem resistir à ordem de despejo que deve ser cumprida hoje pela Polícia Federal junto às áreas ocupadas em Dourados. (Foto: Hedio Fazan) Indígenas prometem resistir à ordem de despejo que deve ser cumprida hoje pela Polícia Federal junto às áreas ocupadas em Dourados. (Foto: Hedio Fazan)

A Polícia Federal deve fazer hoje o despejo de famílias indígenas que ocupam desde fevereiro do ano passado cinco chácaras vizinhas à Aldeia Jaguapiru, em Dourados. Na semana passada, eles se reuniram com membros da Polícia Federal que deu prazo de cinco dias para deixar o local, caso contrário seriam retirados hoje à força.

No dia 16 de dezembro a Justiça concedeu reintegração de posse das propriedades ocupadas. O juiz Diogo Ricardo Goes Oliveira, da 2ª Vara Federal em Dourados, concedeu prazo de 30 dias para a Funai pedir aos índios deixarem o local. O Coordenador do órgão, Vander Nishijima, se reuniu com os indígenas e a Polícia Federal, na semana passada, e do encontro saiu o prazo de cinco dias para os índios deixarem as chácaras. O prazo venceu ontem.

As famílias que ocupam as áreas são de cidades da região. É o caso de Valdemar Vieira, de Caarapó, que ergueu uma casa simples com sobras de madeira aos fundos de uma das propriedades e vive no local com a mulher e quatro filhos. "Aqui é área de índio e reivindicamos o que é nosso. Daqui não saio", afirmou ao O PROGRESSO.

Adelino de Souza, um dos líderes dos indígenas, promete resistência. "Pode vir a polícia, pode vir quem for, aqui é nosso e vamos ficar", enfatizou. Segundo ele, são pelo menos 70 famílias que ocupam as cinco chácaras, pouco mais de 200 pessoas. "Não queremos o que é dos outros, queremos o que é do índio e todo esse problema está acontecendo por culpa do governo, que não resolve problema de falta de terra dos índios", argumenta. "Nesse um ano que estamos aqui [chácaras] já temos plantações de feijão, milho, mandioca. Queremos apenas continuar a viver nesse espaço", diz.

Apenas uma das chácaras está vazia, nas outras quatro os proprietários permanecem no local. Bernardino Cavalheiro é de Juti. Ele veio para Dourados com mais 15 pessoas, entre filhos, genros e netos. "Já gastei mais de R$ 5 mil com mudança e construção das nossas casas. Se eu for despejado não tenho para onde ir".

Os indígenas de outros municípios não são bem aceitos pelos índios em Dourados. Bernardino disse que ofereceram a ele um lote na Aldeia Jaguapiru por R$ 5 mil, mas não tem condições de adquirir. Embora as terras pertençam ao governo federal e não podem ser comercializadas, há venda de lotes para ter direito à permanência na reserva em Dourados.

Terra

O título de posse de sítios aos arredores da Reserva Indígena de Dourados chegou a ser contestada no Tribunal Regional Federal (TRF 3ª Região) pela Funai e Ministério Público Federal (MPF) de que as áreas seriam a extensão da própria reserva. Isso seria motivo, segundo o MPF e a Funai, para os indígenas não serem despejados, pelo menos das chácaras. Conforme a Funai, faltam 44 hectares de terras indígenas. No entanto, o TRF contestou as alegações por falta de provas que as áreas em falta seriam as propriedades rurais ocupados pelos indígenas.