Dourados tem 2 mil famílias indígenas sem moradia

Há mais de 10 anos, Reserva não é contemplada com programas habitacionais. Famílias dizem que para construir teriam que parar de se alimentar ou vestir

Por: Valéria Araújo - 13/04/2018 08h45

 

A Reserva de Dourados tem cerca de 2 mil famílias vivendo debaixo de lonas ou em estruturas improvisadas. São homens, mulheres e crianças e idosos que vivem em péssimas condições de moradia, alojados em barracos de lona e sem saneamento básico.

De acordo com relatório apresentado por entidades ligadas à questão indígena, até 2012, o déficit habitacional era de 1.450 casas, hoje, este número subiu para 2 mil, segundo a estimativa. O documento leva em conta que são 4 mil famílias que habitam as aldeias. No entanto, apenas 1.200 casas foram construídas através de projetos habitacionais, há 10 anos. As outras famílias ergueram moradias com recursos próprios.

Em barracos de lona ou sapé, mães criam os filhos em condições precárias. O calor extremo e o frio são os desafios da comunidade.

De acordo com o coordenador da Fundação Nacional do Índio (Funai), Fernando de Souza, o déficit de moradia é causado porque o poder público, seja Prefeitura e Governo do Estado, nesses últimos anos paralisaram qualquer política pública voltada para a comunidade indígena. "Ainda existe uma dificuldade dos governantes lembrarem que o índio também é cidadão. Prova disso é que nunca procuram fazer os cadastros da comunidade para programas habitacionais como o Minha Casa, Minha Vida, por exemplo", lamenta.

Por causa disso, Fernando esteve em Brasília nessa semana e levou a necessidade de Dourados e região para a Funai Nacional. Ele disse que existe um projeto de melhoria de condições de vida para os índios que estão em acampamentos, mas que no momento não há programas para quem já está em terra legalizada. "Essa é uma atribuição dos governos municipais e estaduais, mas a última vez que Dourados foi contemplada com a construção de moradias na Reserva foi em 2008. De lá para cá, muitas famílias se formaram e foram morar em condições precárias. aumentando a vulnerabilidade em relação à saúde de crianças e idosos", destaca,

A indígena Silvana Rodrigues Cardoso, de 43 anos disse que ao longo de sua vida nunca morou em uma casa de alvenaria. "A gente fez cadastro em casas populares mas elas nunca chegaram na Reserva. Para ter uma casa terei que optar entre construir ou comer e vestir meu filho", reclama, lembrando que vive com renda de R$ 300 mensal, valor que o marido consegue com as diárias de servente de pedreiro, que nem sempre estão disponíveis. "Esperamos que um dia olhem por nossa família e tantas outras aqui da aldeia que precisam de ajuda", acrescenta.