Primeiro álbum de Caetano e Gal Costa chega aos 50 anos

Nascia o projeto de "Domingo", gravado e lançado em 1967 como título atípico nas discografias de ambos os cantores. Bossa Nova reverberam ao longo das 12 gravações

11/01/2017 10h02

Capa do álbum “Domingo”, dos músicos Caetano Veloso e Gal Costa. (Foto: Divulgação)
Capa do álbum “Domingo”, dos músicos Caetano Veloso e Gal Costa. (Foto: Divulgação)

Embora tenha ficado mais conhecido a partir da década de 1980 como o pai do cantor e compositor carioca Cazuza (1958 – 1990), João Araújo (1935 – 2013) foi um dos executivos mais poderosos da história da indústria fonográfica do Brasil. Entre os feitos de Araújo, a aposta em Caetano Veloso e Gal Costa foi um dos mais importantes – talvez o lance mais decisivo para o futuro da música brasileira. Caetano e Gal já tinham debutado no mercado fonográfico em 1965 com a gravação pela RCA dos respectivos fracassados compactos. Mas já pareciam cartas fora do jogo quando Araújo investiu na contratação dos artistas baianos pela gravadora Philips, da qual era diretor artístico, e na gravação de um álbum em dupla que apresentasse Gal e Caetano ao mercado e ao Brasil. Nascia o projeto de "Domingo", álbum gravado e lançado em 1967 que completa 50 anos em 2017 como título atípico nas discografias de ambos os cantores.

Trata-se do único álbum gravado por Caetano – que na capa do LP ainda assinou o sobrenome Velloso com o l dobrado da família – antes da revolução da Tropicália que abriu a mente e a obra do artista. Gal – cujo sobrenome Costa não aparece na capa – ainda soa como a Maria da Graça, ou simplesmente a "Gracinha", devota do mesmo João Gilberto também idolatrado por Caetano como o papa da moderna música brasileira. Ecos da Bossa Nova de João reverberam ao longo das 12 gravações formatadas em estúdio pelo produtor Dori Caymmi com arranjos divididos entre o próprio Dori, Francis Hime e Roberto Menescal, a quem foi confiada a orquestração da canção-título "Domingo", composta por Caetano e gravada pelo autor com Gal, num dos três duetos do disco.

Segundo o blog do jornalista Mauro Ferreira do portal G 1, o primeiro desses três duetos é ouvido logo na abertura do álbum, em "Coração Vagabundo" (Caetano Veloso), canção-síntese do disco, arranjada por Dori, grande avalista e entusiasta do projeto do álbum em dupla. Trata-se da música mais conhecida do repertório, ainda que "Avarandado" (Caetano Veloso), canção solada por Gal e arranjada por Francis, também tenha passado na peneira do tempo.

Embebido em poesia, com alta dose de melancolia, "Domingo" é quase um disco autoral de Caetano, que firmava parceria com o poeta Torquato Neto (1944 – 1972) em Nenhuma dor, canção de amor solada por Gal. Entretanto, a ficha técnica do disco agregava nomes de outros compositores identificados com a estética cool da Bossa Nova. Embora logo fosse se tornar um dos mentores da Tropicália ao lado de Caetano, Gilberto Gil assinava "Minha Senhora e Zabelê" em parceria com Torquato Neto e ainda sem a semente da eletricidade tropicalista. Já consagrado como compositor, Edu Lobo era o autor de "Candeias", melódica canção perfeitamente ajustada à voz de Gal, na época ainda contida, mas já de uma beleza única. Já o compositor carioca Sidney Miller (1945 – 1980) assinava "Maria Joana", deixando entrever o samba que se ouvia na época na cidade do Rio de Janeiro (RJ).

Contudo e com todos, "Domingo" é essencialmente álbum do Caetano pré-tropicalista filtrado pela voz de Gal, bússola do artista neste disco já cinquentenário que se conserva jovial, merecendo loas e louvações ao longo de 2017.