Rituais fúnebres da educação

Davi Roballo

A nossa volta, tudo muda, tudo se transforma, tudo se adapta. Nos primórdios, com a descoberta da roda, fizemos dela a extensão de nossos pés, inventamos a carroça, o automóvel, o trem e os ônibus espaciais que nos levaram à lua. Inventamos o telefone e posteriormente o celular que são a extensão de nossa fala. Chegamos a esse ponto porque fomos especializando-nos e buscando cada vez mais facilitar a vida.

Hoje não se faz café como há cem anos, não se usa mais o telégrafo, disco de vinil, cinema mudo, não conduzimos os mesmos automóveis, mas sim modelos mais sofisticados, porque tudo muda, tudo se transforma, no entanto, esquecemos, ou nos fizeram propositalmente esquecer, uma das partes mais importantes de nossa existência: a educação que continua com os mesmos métodos e práticas de tempos idos, usando o mesmo quadro e o mesmo giz.

A educação encontra-se parada no tempo como uma velha casa abandonada que a cada chuva e dia de sol apodrece um pouco mais. Enquanto isso, o estudante tem em sua realidade o videogame, o celular, a internet e as comunidades virtuais. Tecnologias e mídias que domina como ninguém, mas tem de ir à escola de má vontade olhar para um quadro negro, escrever num caderno assuntos que não interagem com sua realidade. Os meninos e meninas sentem-se desestimulados, como se abandonássemos nossos confortáveis carros e voltássemos a andar de carroça.

O sistema, pelo que parece, não quer de forma alguma produzir uma massa crítica, para isso, aliena-nos, mutila-nos. Comete esses crimes silenciosamente através da educação, a única forma que o ser tem de interagir verdadeiramente coma vida e com o mundo. Augusto Cury diz que no pré-escolar somos assassinados e na universidade rezam nossa missa de sétimo dia. Acredito nisso. No entanto, acrescento que somos velados no ensino fundamental e enterrados no ensino médio.

O assassinato no pré-escolar acontece quando os professores, da forma como foram podados, podam a capacidade perquiritória da criança que tolhida recolhe-se e passa apenas a seguir os passos condicionados como prescreve a cartilha, deixando para trás a sua capacidade de imaginar, criar e desvendar o mundo, que passa a ser-lhe entregue desenhado com a mesma cara que é entregue aos colegas, sufocando e pisoteando assim sua individualidade. O velório no ensino fundamental dá-se porque os mestres estão desestimulados e os alunos desinteressados, pois o que são, não possui vida, nada é atrativo, e então comportam-se como viúvos, viúvas, filhas e filhos de luto que perdem o interesse por um tempo; no caso da educação, o luto já é crônico. Choram e vivenciam um luto de si mesmos, pois ambos deixaram de interagir com o mundo, com a vida, são zumbis que ainda não sabem que intelectualmente morreram.

No ensino médio, a oportunidade de acordar da letargia em que entram se perde na dialética dos mestres, que como a personagem Morpheu, em Matrix, têm em mãos a pílula azul da letargia e a pílula vermelha da realidade. No entanto, como só conhecem a pílula azul, é essa que administram a seus alunos que na maioria são enterrados para sempre. Poucos são os que comparecem à própria missa de sétimo dia da universidade.

A missa de sétimo dia acontece na universidade como um último ato da educação não crítica, que, como as demais fases, continua a nos iludir, ou seja, a universidade prega que nos prepara para a vida, mas na verdade é a última mentira que o sistema emprega para desviar nossa atenção enquanto nos transforma em máquinas, em mão de obra de um mercado cada vez mais voraz e exigente.

Os professores não têm noção do papel e da importância que têm como educadores e agentes capazes de mudar o mundo, bastando, para isso, acordarem para a realidade num processo contagiante e alegre de amor pela vida, amor por ensinar. Têm de serem capazes de devolverem aos alunos a criatividade, a imaginação, a magia perdida, podada, tolhida. Para isso, a sala de aula deve transformar-se em uma seara de dúvidas, perquirições, discussões, investigações e cultura sadia, e mais que tudo, é preciso adentrar ao mundo do aluno, despertando nele interesse e participação efetiva nas discussões. Somente assim poderemos curar a cegueira do mundo. (daviroballo@gmail.com)