Em Dourados, 52% dos professores sofreram com agressões em sala de aula em 2016

A maioria com lotação na Rede Municipal de Educação

Por: O PROGRESSO - 23/08/2017 16h14

(Professora postou fotos da agressão no Facebook (Foto: Reprodução/Facebook) (Professora postou fotos da agressão no Facebook (Foto: Reprodução/Facebook)

A realidade difícil dos educadores no Brasil, eleito país com maior número de violência contra professores em sala de aula, é reflexo também em Dourados. No município, 52% dos profissionais sofreram agressões durante o trabalho em 2016, sendo a maioria lotada na rede municipal de educação.

Os dados são da pesquisa realizada no ano passado pelos professores Dr. Fábio Perboni, da Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD), e Dra. Andréia Nunes Militão, da Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul (UEMS), na qual um questionário foi respondido por 72 profissionais atuante na educação básica com o intuito de revelar a realidade do trabalho dos educadores em Dourados. Os dados relacionados aos casos de violência chamaram a atenção dos pesquisadores.

Gráfico mostra números de violências (Foto: O PROGRESSO) Gráfico mostra números de violências (Foto: O PROGRESSO)

Desse percentual, 44% afirmam ter sofrido agressões verbais, classificadas quando o agressor faz observações ofensivas a respeito das vítimas com a intenção é questionar a capacidade intelectual da pessoa e zombar de sua constituição física e moral. Já 8% desses profissionais afirmam ter sofrido violência física, por de lesão corporal, empurrões, trombadas, ou qualquer tipo de contato físico onde há intenção de intimidação.

A pesquisa mostra que, a maioria dos entrevistados são mulheres atuantes na Rede Municipal de Ensino há mais de cinco anos, com idade acima dos 30 anos. Outro dado importante é que esses profissionais dedicam-se exclusivamente à educação cumprindo uma carga horária semanal de 40 horas de aulas.

Para a presidente do Sindicato Municipal dos Trabalhadores em Educação de Dourados (Simted), Gleice Jane Barbosa, a violência na escola é reflexo de violência fora dela. Gleice aponta que o Estado e o Município deveriam proporcionar a presença de profissionais habilitados para atender a demanda.

"Os educadores não possuem habilitação para dialogar com a violência. É necessário que haja uma equipe multidisciplinar atuando em tempo integral nas unidades educacionais" destacou a presidente.

Segundo a sindicalista, o SIMTED proporciona um amparo aos profissionais que tenham sido vítimas de agressão nas escolas. O sindicado dispõe apoio jurídico e orientações para a recuperação, porém, Gleice ressalta que poucos profissionais procuram apoio da instituição e até mesmo uma minoria busca a justiça para representar contra os autores.

Em contato telefônico com os representantes daeducação pública em Dourados, a secretária municipal de educação Denize Portolan, e o diretor da Coordenadoria Regional de Educação do governo de MS, Nei Elias Coinete, não foi possível obter uma posição do poder público até o fechamento desta matéria.

Para o sargento da Polícia Militar, Júlio Arguelho, realiza palestras nas unidades escolares de Dourados e região com o tema "Diga Não ao Crime", a atuação dos agentes de segurança pública depende das denúncias realizadas pelas vítimas. Ele reitera que na delegacia, os infratores menores de idade possuem medidas protetivas estabelecidas pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).

A psicóloga Vanessa Figueiredo afirma que a violência contra o professor pode ocasionar danos, que muitas vezes são até irreparáveis. Entre os casos atendidos pela psicanalista, os profissionais desenvolveram síndrome do pânico, incapacidade de voltar a lecionar e acabaram tendo de abandonar a profissão ou serem remanejados para outros setores dentro da instituição.

"Esses profissionais acabam tendo a auto-estima afetada, perdem a segurança no direito de ir e vir, são submetidos a tratamentos terapêuticos e até medicamentoso" ressalta Vanessa.

BRASIL EM PRIMEIRO LUGAR

A pesquisa mais recente realizada pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE com 100 mil educadores brasileiros, aponta o País em primeiro lugar no ranking entre os mais incidentes nos casos de violência em sala de aula. No ranking, segue o Brasil com 12,5%, a Estônia, com 11%, e a Austrália com 9,7% e na Coreia do Sul, na Malásia e na Romênia, o índice é zero.

Recentemente uma professora do estado de Santa Catarina, Marcia Friggi, comoveu o país com uma publicação no Facebook, onde mostra o resultado de um livro jogado por um aluno que acabou acertando a face da educadora.

Em entrevista ao G1, a pesquisadora Rosemeyre de Oliveira, da PUC-SP, atribui a violência nas escolas à impunidade dos estudantes. "O aluno que agride o professor sabe que vai ser aprovado. Pode ser transferido de colégio - às vezes é apenas suspenso por oito dias", diz. "Os regimentos escolares não costumam sequer prever esse tipo de crime. Aí, quando ele ocorre, nada acontece."

(Colaborou: Vinicios Araújo)